Saturday, 8 March 2008

Aprecie sem chateação

Entender de vinho e buscar conhecimento é bacana. Pode ser sinônimo de sofisticação de paladar. Mas cuidado, tem que ter medida. Fugindo dela, a pessoa se torna aborrecida e pode virar uma enochata. Há três tipos legais de apreciadores de vinho:

(1) o enófilo, que bebe e aprecia com um certo grau de conhecimento;

(2) o enólogo, que estuda e entende mesmo do assunto;

(3) o sommelier, que entende muito e, profissionalmente, monta adegas e sugere vinhos em restaurantes.

Mas há um tipo mala de apreciador de vinho: o enochato. Infelizmente, esse último se espalhou como praga em parreiral. Em reuniões sociais, em encontros despretensiosos, ele se manifesta por meio de um vocabulário rebuscado, largando pérolas em metáforas difíceis até para os especialistas entenderem. "Percebo asfalto derretido" ou "parece frutas vermelhas do bosque", ou ainda "lembra pitanga morna ao sol do meio-dia", são impressões divulgadas após um único gole e, preferencialmente, diante de uma platéia de leigos.

- Comparar os aromas dos vinhos a frutas e ervas é uma tradição européia, mas que chegou aqui um pouco deturpada. É claro que os vinhos têm esses aromas, mas para as pessoas que trazem essas referências - explica Juliano Maroso, dono da Giuliano Vinhos, uma das principais lojas de Porto Alegre.

O enochato é descrito pela maioria como uma pessoa de conhecimento raso, que adora ficar propagando regras, ou aquele de conhecimento mais aprofundado, de mais conteúdo, mas que se faz inadequado, exibindo seu talento em salões onde não é convidado.

- Vinho foi feito para dar prazer, para beber, e não para impressionar as outras pessoas. Enochato bebe rótulos, não vinhos. Se você gosta de determinada bebida, toma e ninguém tem nada a ver com isso - dispara o jornalista Saul Galvão, que há mais de 30 anos escreve sobre o assunto em livros e no jornal O Estado de S. Paulo.

É fácil perceber quando o enochato arma o ataque. Tudo começa na implicância com a carta de vinhos do restaurante. Se ele sente que o garçom sabe pouco sobre vinho, a cena se encaminha para o constrangimento. Geralmente, após complicar na escolha, ele implica com a temperatura. Para o enochato, ela nunca está correta. Segundo Juliano Maroso, o ritual de apreciação de um vinho não está errado, desde que a pessoa saiba o que está fazendo. Rodar o copo pela haste (para acelerar a oxigenação do vinho e ajudar a "abri-lo"), cheirar a rolha (para verificar se está bouchonné, com a rolha atingida por fungos), cheirar a bebida (para perceber o bouquet, o aroma) e olhar contra a luz (para análise da coloração) está correto, mas pode intimidar o vizinho de mesa se feito de forma ostensiva - uma atitude clássica do enochato. Enochato que é enochato não diz que o vinho é de cor escura, fraco ou forte. Ele abusa no emprego de termos como violáceos, rubis. O vocabulário entre os apreciadores está evoluindo e, sem dúvida, dependendo da maneira como é empregado, afugenta qualquer um. Diz-se que um vinho tem "personalidade", "fineza" e "estirpe", é "sedutor" e "aveludado". Ou "duro", "rude", "sem sutileza". Isso, no mundo dos iniciados. Na mesa dos amigos...

- O encantador do vinho é não ter regra - declara Rogério Concli, da Expand, a maior importadora de vinhos da América Latina.

O jornalista Saul Galvão participa de um grupo de degustação há 25 anos, em que as garrafas são envoltas em alumínio e os participantes precisam identificar as suas características.

É chamada degustação às cegas, para que o degustador não sofra a influência do rótulo.

- O vinho me ensinou humildade. Quem diz que entende é uma besta, não dá para entender do assunto - diz.

Além de serem antipáticos socialmente, até nos negócios os enochatos têm uma influência negativa.

- É um problema para o mercado porque cria uma áurea de intelectualidade em torno da bebida. Isso amedronta e intimida e não estimula que as pessoas se iniciem no consumo - explica Flávio Martins, coordenador do curso de Marketing do Vinho da ESPM.

Para Claude Troisgros, chef francês radicado no Rio de Janeiro, diferentemente das categorias citadas na abertura deste texto, existem três tipos de apreciadores de vinho:

(1) o realmente profissional, que precisa existir para fazer evoluir o mundo do vinho;

(2) o cara que diz que conhece, mas na realidade não sabe nada;

(3) e o amador. Categoria na qual o chef modestamente se inclui.

- O resto é só felicidade.

extraído do blog de Fernanda Zaffari - ClicRBS

Um dos melhores vinhos brancos que já tomei aqui na NZ

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